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Pataxó Hã-Hã-Hãi

Quando a floresta some, o conhecimento precisa sobreviver de outro jeito

Bahia, 2025. O pesquisador indígena Hemerson Dantas dos Santos, dos Pataxó Hã-Hã-Hãi, foi a campo com um objetivo específico: documentar o uso de plantas medicinais pelo seu povo no tratamento de três doenças. O que ele encontrou foi muito maior do que esperava, e muito mais doloroso do que qualquer tabela consegue expressar.

175 plantas medicinais de povos indígenas catalogadas. Uma história de perda dentro de cada uma.

Hemerson catalogou 175 espécies usadas pelos Pataxó Hã-Hã-Hãi.

Dessas, 43 eram utilizadas especificamente para as três doenças que motivaram a pesquisa.

E 79% do total têm uso confirmado pela literatura científica recente.

Mas o dado que mais pesou não foi nenhum desses.

A maioria das plantas medicinais utilizadas pelo povo hoje não é nativa do território original.

São espécies exóticas, introduzidas no ambiente depois do contato com a sociedade não indígena. Mastruz para verminoses. Moringa para diabetes. Capim-cidreira para hipertensão.

Plantas de fora, usadas por um povo que perdeu a floresta de dentro.

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O colonialismo não destruiu só a terra. Destruiu a farmácia.

Grilagem de terras, desmatamento, deslocamento forçado. O que parece história do passado continua produzindo consequências no presente. Quando o território é tomado, a biodiversidade local desaparece junto. E com ela, séculos de conhecimento sobre as espécies nativas que o povo usava para se curar.

O que os Pataxó Hã-Hã-Hãi fizeram diante disso?

Adaptaram. Aprenderam a curar com o que o ambiente invadido oferecia. Construíram um novo sistema de cura a partir do que sobrou.

Isso não é resignação. É uma das formas mais sofisticadas de resistência cultural que existem.

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Ciência indígena não precisa de validação para existir

Quando 79% das plantas de um povo têm uso confirmado pela pesquisa científica ocidental, a conclusão óbvia seria celebrar a “validação”. Mas essa leitura inverte a ordem dos fatos.

O povo já sabia.

Testou ao longo de gerações.

Transmitiu o conhecimento oralmente, em práticas, em rituais de cura.

A academia chegou depois, com seus protocolos e publicações, e encontrou o que o povo já havia descoberto.

Ciência indígena não é pré-ciência.

É outro sistema de produção de conhecimento, igualmente rigoroso, igualmente testado pelo tempo.

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Por que registrar importa

A pesquisa de Hemerson não é só acadêmica.

É um ato de proteção cultural.

Ao nomear, classificar e documentar, o povo reafirma a posse sobre um conhecimento que pode ser alvo de biopirataria, apagamento ou simplesmente esquecimento.

No contexto do Dia Mundial da Vida Selvagem 2026, com a ONU alertando que mais de 20% das plantas medicinais do planeta estão ameaçadas de extinção, esse tipo de registro assume outra dimensão.

Não é só sobre o passado. É sobre garantir que esse conhecimento continue existindo para as próximas gerações.

A floresta pode ter mudado. O conhecimento resistiu.

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