Tem uma coisa que me acontece de vez em quando quando estou pesquisando sobre plantas.
Eu leio um estudo novo, sofisticado, cheio de nomenclatura técnica, e no final me vejo pensando: alguém já sabia disso. Alguém sabia isso muito antes.
Foi exatamente o que senti em fevereiro de 2026, quando li a pesquisa publicada por cientistas da UERJ e da UNIRIO sobre a Kalanchoe pinnata.

O que a pesquisa diz sobre Abamoda:
O estudo investigou os compostos presentes no extrato da Kalanchoe pinnata e encontrou substâncias com atividade biológica relevante, incluindo potencial antitumoral. Até aí, muita gente já tinha ouvido falar dessa planta. O que me parou foi outro detalhe: o solvente mais eficaz na extração desses compostos foi a água.
A água. O mesmo líquido que qualquer pessoa usa para fazer um chá.
A mesma técnica passada oralmente em terreiros de candomblé por gerações, para uma planta que eles chamam de Àbàmòdá, em yorubá, ou Folha Miraculosa, em português.
Uma planta que circulou pela diáspora africana, entrou nos quintais brasileiros e ficou.
Não por acidente. Por conhecimento.
O que os terreiros já sabiam
Nos sistemas de cura afro-brasileiros, a Kalanchoe não é decoração.
Ela é medicinal. É usada em práticas litúrgicas e terapêuticas que articulam corpo, território e espiritualidade de um jeito que a biomedicina ainda está aprendendo a nomear.
E o mais importante: esse conhecimento não foi guardado em livros.
Foi guardado em corpos. Em vozes. Em gestos repetidos na cozinha, no terreiro, no quintal.
Passado de mãe para filha, de babalorixá para yawô, em uma corrente que atravessou o Atlântico e chegou até aqui intacta o suficiente para que a ciência, séculos depois, confirmasse o que ela dizia.
Isso tem um nome na academia: etnofarmacologia. A ciência que estuda o uso tradicional de plantas como ponto de partida legítimo para a pesquisa biomédica. Não como curiosidade folclórica. Como dado.
O que me incomoda, e o que me alegra?
O que me incomoda é o tempo que levou. Quantas plantas ainda estão esperando? Quantos saberes foram descartados antes de alguém resolver testar?
O que me alegra é que estudos como esse existem, e que estão sendo feitos por pesquisadores que têm o cuidado de não se apropriar do conhecimento que estudam. Que reconhecem de onde vieram as perguntas.
A Kalanchoe não precisava da validação científica para funcionar. As pessoas que a usavam sabiam muito bem o que ela fazia. Mas essa validação importa porque muda o que o sistema de saúde aceita escutar. E isso salva vidas.
Como cultivar?
Se você quiser ter uma Kalanchoe em casa, a boa notícia é que ela é das plantas mais generosas que existem.
Prefere luz indireta brilhante, suporta algum esquecimento na rega, e se multiplica facilmente por folhas ou brotos laterais. É carnosa, acumula água, e resiste bem ao calor brasileiro.
Plante em vaso com boa drenagem, substrato leve misturado com areia, e deixe secar entre uma rega e outra. Ela não pede muito. Só pede que você a observe.

Apaixonada por tudo que é verde, Drika é a mente por trás do blog Louca das Plantas.
Produtora cultural e entusiasta da jardinagem, ela combina seu amor pelas plantas para compartilhar dicas práticas, histórias curiosas e truques que transformam qualquer espaço em um verdadeiro refúgio natural. Com um tom descontraído e acolhedor, Drika inspira jardineiras e jardineiros de todos os níveis a cultivar mais do que plantas: a conexão com a natureza.






